Verborreia que mói...
Uma das últimas lições que a vida me ensinou foi:
"Cuidado com os actos que são reflexo de um estado de ansiedade e euforia. E que, não sou a Super- Mulher!"
Ansiosa e farta do tédio, do período de recuperação do pós-operatório, como já não tinha dores há alguns dias, na euforia de ter gente em casa e estar um excelente dia de Verão, resolvi tornar-me autónoma e "montar" a mesa para almoço.
Limpa aqui, leva pra acolá, corta isto e rega com azeite e vinagre, carrega aqui e leva para ali... "Não há sumo? Deixem que eu vou buscar! Em pé não ficas. Toma esta cadeira, senta-te aí! É preciso mais alguma coisa? Eu vou!"
Neste vai-vém de actividade nem me apercebi do mal que estava a fazer.
Se eu soubesse o que viria...
Quando o dia acabou, e o cansaço começou a notar-se começaram a aparecer a dores, cada vez mais intensas. Mas eu que estava numa onda de optimismo (eu que sou uma pessimista de natureza), pensei para os meus botões, "isto passa já. Algum esforçozito, mas não tarda vai tudo ao lugar depressa."
Os dias passaram, mas as dores não.
Deito-me "ai"...
Levanto-me "ai"...
Sento-me "ai"... e o medo cresceu, cresceu e a revolta também.
Fui ao Dr. que apalpou aqui e ali, olhou intrigado, apalpou mais uma vez e outra... mediu e pesou... receitou-me comprimidos prás dores e um exame, que mais do que isto não podia fazer. Mas no seu optimismo ainda disse antes de eu sair "não me parece que seja nada de grave, não sinto nada, mas só o exame o dirá. Vai correr tudo bem." Paguei e fui-me embora.
Por breves momentos senti-me aliviada com as palavras de alento do Dr. mas sempre que sentia a dor ... "ai"... a dor que mói e não larga, o medo crescia e a ansiedade tomou conta de mim. "Respira fundo... fundo... Inspira... Expira..."
Hoje fiz o exame, o técnico examinou, perguntou qual era o problema e voltou a examinar... olhou intrigado e voltou a examinar.
Resultado "não encontro recidiva, não deve ser nada grave. Está inflamado, tem um hematoma, algum líquido... bla... bla... bla... mas não é motivo para ser operada novamente... depois leve os resultados à cirurgiã e ela analisa melhor... agora repouso ABSOLUTO!"
Por um lado estas palavras aliviaram-me novamente o espírito, era a segunda opinião de que não necessitaria de ser operada novamente, mas as dores... estou tão cansada destas dores...
Tenho medo!
Estou cansada!
Estou farta e moída!
Agora falta a última palavra, a da cirurgiã que irá analisar os resultados. Por mim ía lá hoje, agora, já sem mais demora... mas não... terei de esperar mais uma semana, e porque é no privado!
Mais uma semana de dores que moem e remoem.
Vou para casa que já não consigo estar mais aqui, sentada em frente a isto.
Tenho medo!
Estou cansada!
Estou farta das dores que já me moem o corpo e o espírito!
"Até breve", escrevo com optimismo, logo eu que sou pessimista por natureza.
Obrigada pela vossa visita.
Aproveitem a vossa saúde e o que de melhor tem a vida.
Angélika

